Depressão Infanto-Juvenil

– Como os pais podem identificar que as crianças estão em depressão?

os pais podem identificar através da mudança no comportamento da criança e em alterações na forma dela se relacionar com os amigos, com os próprios pais, irmãos, professores. A queda do rendimento escolar, o desenvolvimento de alguns medos e a perda de interesses são bons parâmetros para indicar que há algo errado e que pode se tratar de um quadro de depressão.

– De acordo com as minhas pesquisas, a criança fica apática, não quer brincar, se isola, fica quietinha o tempo inteiro, não se socializa. Posso dizer que exatamente o contrário da criança levada? Talvez represente (se não for um caso muito evidente de depressão) o sonho de todos os pais que trabalham muito, não têm tempo para educar e se preocupar com traquinagens. Este pensamento está correto? Isto ocorre?

A criança quando se deprime muda seu comportamento de forma significativa. Algumas ficam mais tristes e quietas, outras mais irritadas e intolerantes, entretanto o ponto mais comum a todas é a perda de prazer e da capacidade de se divertir que chamamos de anedonia. Algumas crianças com depressão podem ficar mais “levadas” por estarem se sentindo mal e desejarem fazer algo para se livrarem daquilo que elas estão sentido. Normalmente há uma queda no rendimento escolar e na sociabilização também.

Normalmente, mesmo com pais muito ocupados, esse tipo de comportamento costuma chamar a atenção deles e causar certa preocupação, o que os leva a procurar algum tipo de ajuda.

– Crianças que vivem em grandes cidades e têm mais dificuldade de brincar com os seus amiguinhos, só assistem televisão, passam o dia sozinhas. Isto pode estar relacionado com depressão infantil?

A depressão é multifatorial independente da idade de início. No caso da depressão infantil existe a influência de fatores genéticos (história familiar de depressão), fatores ambientais (sofre assédio moral na escola, ausência das figuras parentais, conflitos domésticos, etc) e fatores psicológicos (crianças muito rígidas e pouco flexíveis). Não existe, no entanto uma relação causal direta com o fato das crianças que vivem nas cidades grandes terem mais depressão por que ficam mais em casa, quando comparado com crianças que vivem no interior. Muitas vezes as crianças que estão nos grandes centros podem ter acesso a mais locais de lazer e possuírem pais mais instruídos e atentos e por essa razão estarem mais protegidos de ficarem deprimidos, do que crianças que estão em pequenas cidades mas sem acesso a educação, saúde e outros indicadores de desenvolvimento humano.

– Houve um crescimento dos casos de depressão infantil?

A depressão está aumentando em todas as faixas etárias, inclusive na infância. Além disso, tem sido dada mais atenção ao comportamento e às reações que as crianças apresentam no sentido de buscar ajuda necessária para entender o que está acontecendo. No passado quando uma criança ficava deprimida e começava a ir mal na escola, ela era severamente punida e tratada como “preguiçosa” e “insolente”, sendo que muitas vezes era um quadro de depressão que havia se instalado, podendo muitas vezes se complicar e cronificar.

– É muito comum depressão infantil? Existem estimativas de quantas crianças tem depressão no Brasil, e no mundo? Em relação aos adultos, existem estimativas também? Gostaria de comparar.

Apesar do crescimento na incidência mundial da depressão, mesmo na infância é um fenômeno raro, quando se avalia a população em geral. Não existem trabalhos com enfoque epidemiológico na população brasileira que possam dizer a sua incidência, mas acredita-se que em torno de 5% das crianças possam sofrer de depressão em diferentes graus e intensidades.

A depressão na criança é muito dificil de ser diagnosticada, porque as crianças muitas vezes não conseguem nomear adequadamente seus sentimentos de tristeza, angústia e desesperança. Por essa razão em estudos populacionais haverá uma maior incidência de Transtornos Depressivos nos adultos quando comparados com as crianças e os adolescentes.

– A gente tem sempre a idéia de que na infância é que a vida era boa, que não tínhamos nem tristeza. Mas a depressão infantil põe abaixo este conceito romântico. Qual seria o real motivo para uma criança entrar em depressão? Qual a relação com os pais? É genético? Qual a influencia que a família (não só geneticamente) tem nestes casos? Existe alguma relação com drogas?

Essa é realmente uma visão romanceada da infância. É claro que a maioria das crianças quando ficam tristes não estão deprimidas. Tristeza é um sentimento normal e desejável, pois fala de uma reação a algo que não gostamos e que queremos mudar.

Depressão é uma doença, onde ocorre uma perda na capacidade de reagir às situações da vida de forma mais adequada. O sentimento estagna no polo da tristeza, apatia, desinteresse. Ocorre a perda da capacidade de sentir prazer, dificuldades atencionais e de tomar decisões, queixas físicas como perda de apetite ou do sono, além de dores sem causas físicas. A criança passa a apresentar pensamentos mórbidos e idéias de morte. Esse quadro persiste independente do que se faça externamente para essa criança (como por exemplo, dar-lhe um brinquedo).

Como já falei existe componentes genéticos envolvidos na causa da depressão, mas também situações ambientais complexas como conflitos parentais, baixo nível sócio-econômico, vivência de abusos físicos, sexuais e emocionais, etc.

Pais ausentes, portadores de patologias psíquicas ou com baixa continência podem contribuir para a instalação e piora do quadro depressivo na infância. Muitas vezes é fundamental que seja feito um tratamento da família juntamente com a criança, sem a qual o sucesso desse tratamento está comprometido.

Já as drogas podem sugir mais tardiamente na vida dessa criança e adolescente que já deprimidos procuram um alívio para a sua dor emocional.

– Como foi detectado o primeiro (ou os primeiros casos) de depressão infantil.

Existem relatos de depressão em crianças em trabalhos clássicos de mais um século atrás. Entretanto esse assunto foi durante muitos anos negligenciados e até negado por especialistas do mundo. A maior importância tem sido dada a esse tema nos últimos vinte anos, com o crescimento da produção científica nesse sentido.

-Existe algum caso notável. Quais são os casos mais comuns?

Existem alguns escritores portadores de Transtorno Bipolar (uma doença do humor, que cursa com períodos de depressão e de mania) que relatam que desde criança já apresentavam queixas depressivas.

Normalmente a depressão na infância não aparece como um quadro mais grave, podendo muitas vezes ser ignorada porque a criança muda seu comportamento, mas não se torna agressiva ou apresenta transtornos significativos. Esse quadro (que chamamos de Distimia, que é uma depressão leve, porém crônica cujo diagnóstico é feito a partir de um ano de persistência dos sintomas) pode durar todo o final da infância, passando pela adolescência e se perpetuando na vida adulta.

– Até onde pode ir a depressão infantil?

o quadro pode se tornar muito grave, com o desenvolvimento de sintomas psicóticos (alucinações e delírios com conteúdos depressivos). A criança pode ouvir vozes que a ofende e falam que ela é ruim, ou a crença de que ela é culpada pelo mal que existe no mundo. Outros casos podem cursar com ideação e tentativas de suicídio.

– Como é feito o tratamento?

O tratamento envolve o uso de todos os recursos necessários para restabelecer o humor normal da criança. Podem ser utilizados medicações antidepressivas, psicoterapias (nas diferentes modalidades), terapia familiar, abordagem psicopedagógica, entre outras.

– Como funcionaria a terapia. Diz-se que crianças tendem a misturar fantasia e realidade.

A criança sabe diferenciar a fantasia da realidade, pois quando ela está bem existe a capacidade de conhecer os limites entre elas. A psicoterapia, entre elas a ludoterapia (terapia realizada com brinquedos) ajuda a criança a fortalecer seus recursos egóicos e re-significar seus conflitos, a fim de que possa aprender a lidar com sentimentos ruins.

– Uma criança que teve depressão tem mais chances de se tornar um adulto com depressão?

Sem dúvida, principalmente quando o quadro não identificado e tratado adequadamente.

– a depressão infantil pode acarretar em outros problemas no futuro?

Sim, crianças com depressão podem apresentar fracassos escolares, problemas de sociabilização, ansiedade, fobias, relacionamento familiar insatisfatório, abuso de substâncias psicoativas, etc.

– Existe algum estudo novo sobre o tema?

A todo o momento está sendo publicados trabalhos sobre depressão infantil por grupos que estudam esse tema em profundidade.

– Quais são os principais estudos sobre o tema?

Existe estudos correlacionando depressão infantil com problemas de sono, estudos genéticos, de alterações do ritmo circadiano (sono-vigília), estudos neuropsicológicos e de perfil emocional e também estudos com neuroimagem.