Entrevista Folha Região de Araçatuba de 04/03/2010

– Dr, por favor, explique quais são os seus atuais trabalhos e pesquisas?
Eu sou coordenador do ambulatório do Programa de Transtornos Afetivos do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência (PRATA-SEPIA), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP). Também atuo como psiquiatra junto à Fundação CASA, através do Núcleo de Psiquiatria Forense do HC.

– Definição do transtorno bipolar. Quais são os tratamentos?
O Transtorno Bipolar é uma doença mental grave que afeta diretamente o humor e as emoções do paciente. O indivíduo alterna períodos de depressão maior, com risco de suicídio e períodos em que fica em estado de grande euforia, arrogância e agitação, conhecido como episódio de mania. O paciente também pode apresentar o estado misto, onde apresenta depressão e mania simultaneamente. Quando esse diagnóstico acontece em crianças e adolescentes, costumamos ver quadros mais severos, com importante oscilação do humor (às vezes a criança apresenta fases de depressão e mania
várias vezes no mesmo dia), e uma maior incidência de estados mistos.
O tratamento é multidisciplinar sendo fundamental a estabilização do humor com o uso de medicações chamadas Estabilizadores do Humor. Além disso, é muito importante o tratamento psicológico, terapia e orientação familiar
e atendimento psicopedagógico, pois essas crianças e adolescentes apresentam sérios problemas de aprendizado.

– Como diagnosticar o problema? É mais decorrente em que faixa etária e classe social?
O diagnóstico é feito por psiquiatra da infância e adolescência após avaliação clínica. Normalmente esse quadro ocorre mais frequentemente no final da adolescência, assim como outros transtornos psiquiátricos como a
esquizofrenia. Entretanto, em nossa experiência e por estarmos em um serviço de referência nacional, temos feito o diagnóstico em pré-adolescentes (abaixo dos 10 anos de idade) e também em crianças muito pequenas, abaixo dos 06 anos (essa faixa etária é conhecida como pré-escolar).
Não há um nível sócio-econômico e cultural de maior incidência, mas obviamente quanto mais baixo for esse nível, mais difícil será o acesso ao tratamento e estressores psicossociais estarão presentes em maior grau,
piorando a evolução do quadro.

– Estima-se que quantas pessoas da população mundial sofram desse problema? E no Brasil?
Acredita-se por estimativas mundiais que cerca de 1% da
população sofra do Transtorno Bipolar tipo I (que cursa com
quadros bem definidos de mania e depressão), sendo essa
estimativa a mesma para o Brasil. Entretanto quando se
considera o espectro bipolar (cuja apresentação clínica é
menos clara e específica, mas também significativamente
grave com sérias consequências na vida prática do
indivíduo), gira em torno de 10% da população.
Com relação ao Transtorno Bipolar de início na infância e
adolescência não há dados epidemiológicos confiáveis,
principalmente no Brasil
– Na palestra de amanhã em Araçatuba, o que será abordado?
A proposta da palestra de amanhã, que é dirigida para pais,
é enfocar o desenvolvimento normal da criança e os fatores
que influenciam nesse desenvolvimento. Alertar para os
principais sinais que possam sugerir que aquela criança ou
adolescente sofra de algum transtorno mental.
Apesar de toda a informação que veicula hoje em dia, é
comum que muitas pessoas acreditem que criança e
adolescente não apresente transtornos mentais como
depressão e pânico. Sendo assim, não há procura por
atendimento médico ou psicológico e o quadro se torna mais
grave e muitas vezes refratário a tratamento.
Além disso, o poder público ainda investe pouco na saúde
mental da criança e adolescente. A rede pública é bastante
carente de serviços e profissionais preparados para atender
a essa demanda.
– Fale um pouco a respeito do livro “Transtorno bipolar na
infância e
adolescência – Aspectos clínicos e comorbidades”.
Esse livro foi lançado no ano passado com a proposta de
possibilitar ao público brasileiro informações atualizadas
e com rigor científico, mas com uma leitura acessível a
pais, professores e profissionais de saúde falando sobre o
Transtorno Bipolar de início precoce.
Toda a literatura nessa área é estrangeira e até bem pouco
tempo sem tradução para o português.
O principal enfoque do livro é abordar, além dos aspectos
clínicos, as principais comorbidades psiquiátricas que
acometem o Transtorno Bipolar na Infância e Adolescência.
Chamamos de comorbidade a coexistência de duas patologias
diferentes e independentes, mas que ao existirem
simultaneamente dificultam o diagnóstico torna o quadro
mais grave e refratário, além de piorar a evolução do
mesmo, como acontece, por exemplo, em alguém que possui ao
mesmo tempo hipertensão arterial, diabetes e
hipercolesterolemia.
Tivemos a sorte de contar com excelentes colaboradores de
centros de pesquisa de referência nacional e também do
próprio SEPIA, que puderam falar dessas comorbidades
psiquiátricas que acometem o Transtorno Bipolar, como o
Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade e o Abuso
de Substâncias.
– Com relação à personagem da novela das oito, Viver a
Vida, Rafaela, como
podemos caracterizá-la? Ela se enquadra no perfil bipolar
ou já é outro caso
clínico? Realmente existem crianças assim? Como proceder,
tratar e
diagnosticar?
Não costumo assistir a novelas por pura falta de tempo, mas
recentemente observei aquela menina e puder concluir que se
tratava de um Transtorno de Conduta. Não há nada no quadro
dela que lembre o Transtorno Bipolar.
O Transtorno de Conduta, que quando não tratado pode
evoluir para um Transtorno de Personalidade Antissocial, é
caracterizado pela ausência de culpa e atitudes
provocativas de forma intencional, além de fazer maldades
com a finalidade de obter vantagens. É considerado um
desvio da formação de caráter. Pelo que pude perceber em
uma cena, ela chantageia a protagonista Helena, por puro
prazer de deixá-la constrangida. Lembro que ela dizia “…
você é quem tem que ter medo de mim” (quando ameaçou contar
para o marido dela que a mesma teria beijado outro homem).
Havia sadismo e prazer naquela provocação e o desejo de
intimidar e obter algum ganho.
Existem crianças assim, sendo muitas vezes difícil o
diagnóstico.
Quando bem realizado, o tratamento inicialmente é focado na
terapia familiar e na terapia individual, principalmente na
abordagem cognitivo-comportamental.
– Quando em tratamento, quais são os cuidados com esta
criança? No que os
pais precisam ficar mais atentos? Existe cura?
É importante lembrarmos que se trata de uma criança, cujo
padrão moral e ético está sendo construído. Ao perceber uma
tendência a esse diagnóstico, que reforço deve ser feito
com muito critério e por profissional especializado, deve
ser focado no trabalho desses conceitos morais e no
desenvolvimento de aspectos mais saudáveis da
personalidade.
A avaliação através de testes projetivos de personalidade
pode ajudar a nortear a forma que essa psicoterapia deverá
ser conduzida.
Os pais devem ser constantemente orientados e apoiados e é
fundamental colocar que, castigos físicos e violência
doméstica pioram de forma significativa a evolução clínica.
Estamos falando de um desvio moral de uma personalidade em
desenvolvimento e não de uma doença, por isso não
utilizamos o conceito de cura, mas de prevenção e cuidado.
Mas existe sim a possibilidade de ajudar tanto a essa
criança e adolescente, quanto aos seus pais e familiares.
– Relatos de casos reais parecidos com o de Rafaela? Não é
necessário citar
nomes reais.
No momento não tenho nenhum exemplo claro, mas em nosso
livro há um capítulo muito bem escrito pelo nosso colega
Dr. Paulo Germano que aborda o Transtorno de Conduta (TC) e
o Transtorno Desafiador de Oposição (TDO) em comorbidade
com o Transtorno Bipolar (TB) na infância e adolescência.
Nesse capítulo ele descreve bem o diagnóstico tanto do TC
como o TDO, a coexistência com TB e no final há dois casos
clinicos.
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