Entrevista Jovem Pan – 03/05/2010 Depressão e transtorno bipolar na infância e adolescência

Questões sobre depressão infantil

Doutor, por favor, explique quais são os seus atuais trabalhos e pesquisas?
Eu sou coordenador do ambulatório do Programa de Transtornos Afetivos do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência (PRATA-SEPIA), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo psiquiatra junto à Fundação CASA, através do
Núcleo de Psiquiatria Forense do HC.

Como os pais podem identificar que as crianças estão em depressão?
Os pais podem identificar através da mudança no comportamento da criança e em alterações na forma dela se relacionar com os amigos, com os próprios pais, irmãos, professores. A queda do rendimento escolar, o desenvolvimento de alguns medos e a perda de interesses são bons parâmetros para indicar que há algo errado e que pode se tratar de um quadro de depressão.

– Crianças que vivem em grandes cidades e têm mais dificuldade de brincar com os seus amiguinhos, só assistem televisão e passam o dia sozinhas. Isto pode estar relacionado com depressão infantil?
A depressão é multifatorial independente da idade de início. No caso da depressão infantil existe a influência de fatores genéticos (história familiar de depressão), fatores ambientais (sofre assédio moral na escola, ausência das figuras parentais, conflitos domésticos, etc) e fatores psicológicos (crianças muito rígidas e pouco flexíveis). Não existe, no entanto uma relação causal direta com o fatos das crianças que vivem nas cidades grandes terem mais depressão por que ficam mais em casa, quando comparado com crianças que vivem no interior. Muitas vezes as crianças que estão nos grandes centros podem ter acesso a mais locais de lazer e possuírem pais mais instruídos e atentos e por essa razão estarem mais protegidos de ficarem deprimidos, do que crianças que estão em pequenas cidades, mas sem acesso a educação, saúde e outros indicadores de desenvolvimento humano.

– Houve um crescimento dos casos de depressão infantil?
A depressão está aumentando em todas as faixas etárias, inclusive na infância. Além disso, tem sido dado mais atenção ao comportamento e às reações que as crianças apresentam no sentido de buscar ajuda necessária para entender o que está acontecendo. No passado quando uma criança ficava deprimida e começava a ir mal na escola, ela era severamente punida e tratada como “preguiçosa” e “insolente”, sendo que muitas vezes era um quadro de depressão que havia se instalado, podendo muitas vezes se complicar e cronificar.

– É muito comum depressão infantil? Existem estimativas de quantas crianças tem depressão no Brasil, e no mundo? Em relação aos adultos, existem estimativas também? Gostaria de comparar.
Apesar do crescimento na incidência mundial da depressão, mesmo na infância é um fenômeno raro, quando se avalia a população em geral. Não existem trabalhos com enfoque epidemiológico na população brasileira que possam dizer a sua incidência, mas acredita-se que em torno de 5% das crianças possam sofrer de depressão em diferentes graus e intensidades.
A depressão na criança é muito dificil de ser diagnosticada, porque as crianças muitas vezes não conseguem nomear adequadamente seus sentimentos de tristeza, angústia e desesperança. Por essa razão em estudos populacionais haverá uma maior incidência de Transtornos Depressivos nos adultos quando comparados com as crianças e os adolescentes.

– A gente tem sempre a idéia de que na infância é que a vida era boa, que não tínhamos nem tristeza. Mas a depressão infantil põe abaixo este conceito romântico.
Qual seria o real motivo para uma criança entrar em depressão? Qual a relação com os pais? É genético? Qual a influencia que a família (não só geneticamente) tem nestes casos? Existe alguma relação com drogas?
Essa é realmente uma visão romanceada da infância. É claro que a maioria das crianças quando ficam tristes não estão deprimidas. Tristeza é um sentimento normal e desejável, pois fala de uma reação a algo que não gostamos e que queremos mudar.
Depressão é uma doença, onde ocorre uma perda na capacidade de reagir às
situações da vida de forma mais adequada. O sentimento estagna no polo da
tristeza, apatia, desinteresse. Ocorre a perda da capacidade de sentir prazer,
dificuldades atencionais e de tomar decisões, queixas físicas como perda de apetite ou do sono, além de dores sem causas físicas. A criança passa a apresentar pensamentos mórbidos e idéias de morte. Esse quadro persiste independente do que se faça externamente para essa criança (como por exemplo, dar-lhe um brinquedo).
Como já falei existe componentes genéticos envolvidos na causa da depressão, mas também situações ambientais complexas como conflitos parentais, baixo nível sócioeconômico, vivência de abusos físicos, sexuais e emocionais, etc.
Pais ausentes, portadores de patologias psíquicas ou com baixa continência podem contribuir para a instalação e piora do quadro depressivo na infância. Muitas vezes é fundamental que seja feito um tratamento da família juntamente com a criança, sem a qual o sucesso desse tratamento está comprometido.
Já as drogas podem surgir mais tardiamente na vida dessa criança e adolescente que já deprimidos procuram um alívio para a sua dor emocional.

– Como foi detectado o primeiro (ou os primeiros casos) de depressão infantil.
Existem relatos de depressão em crianças em trabalhos clássicos de mais um século atrás. Entretanto esse assunto foi durante muitos anos negligenciado e até negado por especialistas do mundo. A maior importância tem sido dada a esse tema nos últimos vinte anos, com o crescimento da produção científica nesse sentido.

-Existe algum caso notável. Quais são os casos mais comuns?
Existem alguns escritores portadores de transtorno bipolar (uma doença do humor, que cursa com períodos de depressão e de mania) que relatam que desde criança já apresentavam queixas depressivas.
Normalmente a depressão na infância não aparece como um quadro mais grave, podendo muitas vezes ser ignorada porque a criança muda seu comportamento, mas não se torna agressiva ou apresenta transtornos significativos. Esse quadro (que chamamos de distimia, que é uma depressão leve, porém crônica cujo diagnóstico é feito a partir de um ano de persistência dos sintomas) pode durar todo o final da infância, passando pela adolescência e se perpetuando na vida adulta.

– Até onde pode ir a depressão infantil?
O quadro pode se tornar muito grave, com o desenvolvimento de sintomas
psicóticos (alucinações e delírios com conteúdos depressivos). A criança pode ouvir vozes que a ofende e falam que ela é ruim, ou a crença de que ela é culpada pelo mal que existe no mundo. Outros casos podem cursar com ideação e tentativas de suicídio.

– Como é feito o tratamento?
O tratamento envolve o uso de todos os recursos necessários para restabelecer o humor normal da criança. Pode ser utilizados medicações antidepressivas, psicoterapias (nas diferentes modalidades), terapia familiar, abordagem psicopedagógica, entre outras.

– Como funcionaria a terapia. Diz-se que crianças tendem a misturar fantasia e realidade.
A criança sabe diferenciar a fantasia da realidade, pois quando ela está bem existe a capacidade de conhecer os limites entre elas. A psicoterapia, entre elas a ludoterapia (terapia realizada com brinquedos) ajuda a criança a fortalecer seus recursos egóicos e re-significar seus conflitos, a fim de que possa aprender a lidar com sentimentos ruins.

– Uma criança que teve depressão tem mais chances de se tornar um adulto com depressão?
Sem dúvida, principalmente quando o quadro não identificado e tratado
adequadamente.

– A depressão infantil pode acarretar em outros problemas no futuro?
Sim, crianças com depressão podem apresentar fracassos escolares, problemas de sociabilização, ansiedade, fobias, relacionamento familiar insatisfatório, abuso de substâncias psicoativas, etc.

– Existe algum estudo novo sobre o tema?
A todo o momento está sendo publicado trabalhos sobre depressão infantil por grupos que estudam esse tema em profundidade.

– Quais são os principais estudos sobre o tema?
Existem estudos correlacionando depressão infantil com problemas de sono, estudos genéticos, de alterações do ritmo circadiano (sono-vigília), estudos neuropsicológicos e de perfil emocional e também estudos com neuroimagem.

Questões sobre o transtorno bipolar na infância e adolescência
– Definição do transtorno bipolar. Quais são os tratamentos?
O transtorno bipolar é uma doença mental grave que afeta diretamente o humor e as emoções do paciente. O indivíduo alterna períodos de depressão maior, com risco de suicídio e períodos em que fica em estado de grande euforia, arrogância e agitação, conhecido como episódio de mania. O paciente também pode apresentar o estado misto, onde apresenta depressão e mania simultaneamente. Quando esse diagnóstico acontece em crianças e adolescentes costumamos ver quadros mais severos, com importante oscilação do humor (às vezes a criança apresenta fases de depressão e mania várias vezes no mesmo dia), e uma maior incidência de estados mistos.
O tratamento é multidisciplinar sendo fundamental a estabilização do humor com o uso de medicações chamadas Estabilizadores do Humor. Além disso, é muito importante o tratamento psicológico, terapia e orientação familiar e atendimento psicopedagógico, pois essas crianças e adolescentes apresentam sérios problemas de aprendizado.

– Como diagnosticar o problema? É mais decorrente em que faixa etária e classe social?
O diagnóstico é feito por psiquiatra da infância e adolescência após avaliação clínica.
Normalmente esse quadro ocorre mais frequentemente no final da adolescência, assim como outros transtornos psiquiátricos como a esquizofrenia. Entretanto, em nossa experiência e por estarmos em um serviço de referência nacional, temos feito o diagnóstico em pré-adolescentes (abaixo dos 10 anos de idade) e também em crianças muito pequenas, abaixo dos 06 anos (essa faixa etária é conhecida como pré-escolar).
Não há um nível sócio-econômico e cultural de maior incidência, mas obviamente quanto mais baixo for esse nível, mais difícil será o acesso ao tratamento e estressores psicossociais estarão presentes em maior grau, piorando a evolução do quadro.

– Estima-se que quantas pessoas da população mundial sofram desse problema? E no Brasil?
Acredita-se por estimativas mundiais que cerca de 1% da população sofra do
Transtorno Bipolar tipo I (que cursa com quadros bem definidos de mania e
depressão), sendo essa estimativa a mesma para o Brasil. Entretanto quando se considera o espectro bipolar (cuja apresentação clínica é menos clara e específica, mas também significativamente grave com sérias consequências na vida prática do indivíduo), gira em torno de 10% da população.
Com relação ao Transtorno Bipolar de início na infância e adolescência não há dados epidemiológicos confiáveis, principalmente no Brasil.

– Fale um pouco a respeito do livro “Transtorno bipolar na infância e adolescência – Aspectos clínicos e comorbidades”.
Esse livro foi lançado no ano passado com a proposta de possibilitar ao público brasileiro informações atualizadas e com rigor científico, mas com uma leitura acessível a pais, professores e profissionais de saúde falando sobre o Transtorno Bipolar de início precoce.
Toda a literatura nessa área é estrangeira e até bem pouco tempo sem tradução para o português.
O principal enfoque do livro é abordar, além dos aspectos clínicos, as principais comorbidades psiquiátricas que acometem o transtorno bipolar na infância e adolescência.
Chamamos de comorbidade a coexistência de duas patologias diferentes e
independentes, mas que ao existirem simultaneamente dificultam o diagnóstico tornam o quadro mais grave e refratário, além de piorar a evolução do mesmo, como acontece, por exemplo, em alguém que possui ao mesmo tempo hipertensão arterial, diabetes e hipercolesterolemia.
Tivemos a sorte de contar com excelentes colaboradores de centros de pesquisa de referência nacional e também do próprio SEPIA, que puderam falar dessas comorbidades psiquiátricas que acometem o transtorno bipolar, como o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade e o abuso de substâncias.