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Suicídio na Infância e na Adolescência.

Postado por em 20, janeiro 2011

INTRODUÇÃO

O suicídio entre a população infanto-juvenil torna-se em alguns países como os Estados Unidos e Japão, a principal causa mortis entre indivíduos dessa faixa etária, tornando-se um problema de saúde pública nessas circunstâncias.
A prevalência, assim como em outras faixas etárias, é de indivíduos do sexo masculino e a intervenção mais importante a ser feita é nas tentativas e na ideação suicida.
A intenção suicida é freqüentemente difícil de definir principalmente entre os pré-adolescentes, pois o desejo de morrer não está muito claro para esse jovem, de forma que ele pode não demonstrar qualquer alteração de seu comportamento poucos dias antes da tentativa. É importante que o profissional que faça o atendimento dessa criança ou adolescente suspeite do comportamento suicida frente a qualquer manifestação de auto-injúria, não se levando em conta o método utilizado ( toda e qualquer tentativa de atos autoprejudiciais devem ser considerados).
O desejo de causar a morte é o objetivo básico para o comportamento suicida, mas muitas vezes a morte não é vista como definitiva, principalmente para uma criança pequena. Por exemplo, uma criança de 07 anos pode compreender que seu cachorrinho morreu e que por isso não está mais vivo, mas não entender que se ela morrer não poderá voltar a viver novamente. Isso significa que a criança pode compreender que o melhor seria morrer em um momento de grande sofrimento, mas que esse processo poderia ser reversível.
Crianças e adolescentes utilizam métodos que podem ser tornam freqüentemente letais, como a intoxicação exógena, armas de fogo, sufocação, atropelamento, queimaduras, enforcamento. Outras vezes podemos observar tentativas de suicídio em situações cotidianas como acidentes domésticos freqüentes. A elaboração do suicídio será tanto mais complexa quanto maior o acesso que a criança ou adolescente tiver a métodos mais eficazes.

AUTÓPSIA PSICOLÓGICA

A autópsia psicológica diz respeito ao inquérito retrospectivo nos casos de suicídio, tentativas ou comportamentos automutilatórios. Podem ser relatos de pessoas próximas, análise de conteúdos de bilhetes, e-mails ou tarefas escolares recentes, aplicação de testes psicológicos e entrevistas estruturadas. Essa investigação se mostra muito útil para se detectar fatores desencadeantes, riscos de novas tentativas, presença de psicopatologias, estressores psicológicos e sociais. Entretanto muitas vezes tais dados são de difícil obtenção principalmente nos inquéritos familiares onde questões da problemática da dinâmica familiar, sensação de impotência, vergonha e raiva, acabam por impedir uma avaliação completa de todo o processo.

ETIOLOGIA

A autópsia psicológica permite, através do estudo dos registros deixados ou pela entrevista feita por pessoas próximas ao falecido, a compreensão das possíveis causas que motivaram o suicídio.
Dentre os diferentes achados encontra-se alta incidência de abuso de substâncias psicoativas, principalmente álcool, maconha e cocaína; presença de transtornos afetivos (depressão e transtorno bipolar do humor); transtornos anti-sociais e borderline de personalidade e tentativas prévias de suicídio.
Foi também encontrada alta correlação entre o suicídio de jovens e a presença de auto-avaliação negativa, falta de esperança, insônia e anedonia (falta de
prazer).
A dinâmica familiar e interpessoal apresenta um importante papel na gênese do comportamento suicida entre crianças e jovens. É significativa a associação entre esse comportamento e a presença de perturbação psiquiátrica entre membros da família.
Estudos demonstram alta prevalência de doenças mentais e clínicas e história de suicídio e tentativas de suicídio entre familiares de crianças e adolescentes suicidas quando comparadas com o grupo controle. As psicopatologias mais freqüentes entre os familiares de adolescentes que tentaram suicídio eram abuso de álcool e drogas, comportamento agressivo e relacionamentos instáveis.
A violência (física e sexual) foi descrita como um forte fator de risco para o comportamento suicida em crianças e adolescentes
Há também alguns estudos mostrando a correlação entre o comportamento suicida da criança e o do jovem e a dinâmica da família de culpabilizar esse indivíduo por todos os problemas que a família enfrenta, levando-o a acreditar que deve morrer para livrar a família de todo o mal (conceito de “criança dispensável”).
Os fatores socioculturais são questões importantes que afetam o risco do suicídio juvenil. Questões como o sucesso escolar, mudanças sociais ocorrendo de forma abrupta e características culturais específicas podem explicar as diferentes incidências de suicídio em várias partes do mundo.
Vários exemplos podem ser utilizados como a alta taxa de suicídio entre jovens japoneses que não conseguem atingir o sucesso nos exames vestibulares, ou o mais fácil acesso a armas de fogo nos Estados Unidos. Outro importante exemplo desse processo sociocultural seria o efeito de imitação onde há veiculação, através dos meios de comunicação, de casos de suicídio juvenil, aumentaram a incidência de suicídio nessa mesma faixa etária.

AVALIAÇÃO CLÍNICA

A avaliação do comportamento suicida juvenil envolve entrevistas abrangentes com o jovem suicida e seus pais, a coleta de informações o mais detalhada possível, levantamento dos fatores de risco e da gravidade de novas tentativas.
A tabela abaixo relaciona alguns parâmetros que sugerem alto e baixo risco de comportamento suicida em crianças e adolescentes.

Parâmetro Alto Risco Baixo Risco
Previsibilidade do
Jovem Baixa Alta
Circunstância do Sozinho Próximo a alguém
Comportamento Planejado (-) planejados
Suicida Métodos Método
Baixa letalidade
Letais
Intenção de
Morrer Alta Baixa
Psicopatologia Presente Ausente ou leve
Grave
Mecanismos de
Enfrentamento Fraco julgamento Bom julgamento
Fraco controle Bom controle
Impulsos Impulsos
Alta desesperança baixa desesperança
Alta impotência Baixa impotência
Comunicação Fraca ou ambivalente Boa, clara
Apoio Familiar Inconsistente Consistente
Estresse Ambiental Alto Baixo

O aspecto mais importante da avaliação é o de determinar o grau de perigo imediato para a criança ou adolescente, a circunstância na qual ela se encontra, a intenção de morrer ou provocar o ferimento, o grau de planejamento do ato suicida e até onde o socorro pode alcançar. O acesso a métodos letais como armas de fogo devem ser verificados com precisão.A análise das condições familiares e ambientais também são de suma importância. Deve ser verificado o grau de estruturação dessa família, a presença de estressores sociais, a possibilidade de continência do meio.
A avaliação dessas condições determinará a conduta a ser tomada, podendo se optar pela internação hospitalar caso se evidencie risco eminente de suicídio e/ou falta de suporte familiar.
O diagnóstico diferencial do comportamento suicida em uma criança ou adolescente implica em definir se a presença de lesões corporais ou acidentes sofridos são ou não intencionais.Como essas situações são muitas vezes difíceis de se determinar com clareza deve-se considerar a possibilidade de se tratar de uma tentativa de suicídio com risco considerável, devendo-se definir com rapidez a melhor conduta terapêutica.

TRATAMENTO

A questão principal no tratamento é diminuir as conseqüências de uma lesão auto-infligida ou a morte da criança ou adolescente. Muitas vezes em caráter emergencial a internação psiquiátrica será necessária quando não houver condições de seguimento ambulatorial ou se a intervenção terapêutica precisar ser intensiva.
As intervenções psicoterapêuticas devem primar pela criação de uma atmosfera de confiança, empatia e respeito pelo sofrimento psíquico que motivaram a criança ou o jovem a cometer o suicídio. Em algumas circunstâncias a utilização de psicofármacos pode ser necessária, com o intuito de reduzir sintomas de transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade, impulsividade, labilidade do humor ou sintomas psicóticos.
A intervenção no ambiente familiar é de suma importância. Aproximar os familiares do paciente, trabalhar as dificuldades que permeiam as relações, promover um diálogo franco, orientar sobre possíveis sinais futuros de novas tentativas procurando evitar dentro do cerne da família a idéia que ideação ou tentativa de suicídio tem um caráter exibicionista (chamar a atenção), pois esse gesto pode indicar um pedido de socorro.
O tratamento deve também focar a prevenção de novas tentativas, procurando identificar possíveis fatores de risco na criança e no jovem, no seu ambiente e nas pessoas que o cercam.
Algumas experiências com adolescentes voluntários mostraram eficácia. Após o salvamento do suicida, adolescentes amigos e colegas de escola passam a participar ativamente da vida em família, mudando a dinâmica familiar. A introdução programada desses amigos que passam a viver juntos por horas seguidas, sempre que possível, previne novos atos suicidas, pelo menos a curto prazo. Essa intervenção promove um espaço no ambiente dessa criança ou adolescente onde ela poderá sentir-se apoiada, aceita, respeitada, podendo trazer a tona sentimentos ambivalentes de raiva, culpa, medo, vergonha.

CONCLUSÃO

Muitas conclusões podem ser tiradas das experiências no atendimento de crianças e adolescentes suicidas. Identificar fatores de risco, sensibilizar familiares e profissionais que atendem a essa população (professores, orientadores pedagógicos, médicos pediatras e hebiatras, outros profissionais de saúde, agentes da comunidade) a ficarem atentos a sinais de ideação ou tentativas de suicídio na infância e adolescência; intervenção precoce e eficaz, além de medidas para prevenir novas tentativas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1) Melvin Lewis. Tratado de Psiquiatria da Infância e Adolescência.
Tentativa de Suicídio em Crianças e Adolescentes: Causas e Manejo. Ed.Artes Médicas; 1995, p 677-685;
2) Haim Grunspun. Crianças e Adolescentes com Transtornos Psicológicos e do Desenvolvimento.
Suicídio na Adolescência – Fatores de Risco. Ed.Atheneu, 1999, p 187-192;
3) Alexandrina Meleiro, Chei Tung Teng, Yuan Pang Wang. Suicídio-estudo fundamentais. Segmento Farma, 2004, p 97-108.

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