Transtornos de Humor e de Ansiedade na Infância e Adolescência.

TRANSTORNOS DE HUMOR E DE ANSIEDADE NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA E SUAS IMPLICAÇÕES NA VIDA ACADÊMICA.

Os transtornos psiquiátricos surgem na infância e adolescência numa proporção significativa, comprometendo o desenvolvimento global da criança e do adolescente.
Eles podem ocorrer desde o nascimento como o retardo mental e o autismo infantil, aparecer na primeira infância como o TDAH, transtornos de aprendizagem, transtornos de linguagem ou em qualquer época da vida do indivíduo como é o caso da esquizofrenia, transtornos do humor, transtornos ansiosos, dependência química, transtornos de conduta, opositor desafiante, etc. Todos eles em maior ou menor grau produzem diferentes prejuízos desde uma leve desadaptação social e acadêmica até as mais graves como envolvimento com a lei, infrações graves, suicídio e cronificação do estado psicopatológico.
Apesar de uma incidência considerável (em torno de 20% segundo a Organização Mundial de Saúde), os transtornos psiquiátricos são ainda pouco explorados e também pouco conhecidos por parte dos diferentes profissionais ligados à infância e à adolescência. Dentre os grupos dos transtornos psiquiátricos da Infância e adolescência, os transtornos de humor e da ansiedade merecem um destaque especial pela importante incidência entre as crianças em fase escolar, prejuízos provocados no desenvolvimento das habilidades sociais, emocionais e acadêmicas e da possibilidade de tratamento e cura quando adequadamente diagnosticados e tratados.
Os profissionais da educação possuem um papel fundamental no processo diagnóstico. São eles que muitas vezes observam alterações comportamentais e piora do padrão de aprendizagem dos conteúdos programáticos e que poderiam sugerir ou mesmo mediarem o encaminhamento dessa criança ou adolescente para uma avaliação psiquiátrica e psicológica.
Este texto tem como principal finalidade alertar professores e educadores quanto aos principais diagnósticos de transtornos do humor e de ansiedade, bem como os sintomas mais prevalentes. Isso também possibilitará que se percebam dentro de sala de aula quais são os prejuízos observados no processo de aprendizagem quando uma criança ou adolescente encontra-se com o diagnóstico de alguma dessas psicopatologias, evitando-se a estigmatização do aluno.

TRANSTORNOS DE HUMOR

São conhecidos como transtornos de humor as psicopatologias que afetam de maneira significativa o humor e os sentimentos do indivíduo. Dentre elas temos a depressão (ou Transtorno Unipolar) e o Transtorno Bipolar.
Existem variações quanto ao tipo, intensidade e forma de evolução de cada uma delas. Entretanto o mais importante é ressaltar que o indivíduo portador de uma dessas patologias não consegue responder de forma esperada aos eventos externos, ou seja, existe uma resposta afetiva desadaptada e inconstante, podendo ser uma alteração aguda ou em estado cronificado.
Para entendermos melhor do que se trata esse grupo de doenças psíquicas, basta lembrarmos que frente a diferentes situações ou momentos de vida, automaticamente apresentamos uma reação emocional. Ficamos tristes quando perdemos um parente ou um amigo, irritados quando o nosso time de futebol perde uma decisão, desanimados quando não somos reconhecidos em nosso trabalho, felizes e alegres quando recebemos um dinheiro ou um presente que não eram esperados. Todas essas são reações normais a essas situações que ocorrem no dia a dia.
Entretanto o portador de um transtorno de humor reage de forma anômala a qualquer situação. Isso pode ocorrer com ou sem evento estressor presente. Por exemplo, um indivíduo em depressão fica triste sem motivo e por um longo período de tempo. Essa tristeza sempre é acompanhada por inúmeros outros sintomas como desprazer, cansaço, choro fácil, lentidão no pensamento e nas ações, irritação, falta de paciência, alteração do sono e do apetite e muitas vezes pensamentos de desesperança e idéias de morte. Um paciente portador do transtorno bipolar apresenta, quando em fase de mania, uma alegria exagerada, excesso de energia, vontade de fazer tudo ao mesmo tempo, pensa e fala rápido, sensação de ser o melhor de todos e um tempo depois, já em fase depressiva, apresenta sintomas depressivos importantes muitas vezes acompanhados de tentativas de suicídio. Tudo isso ocorre sem que nada ou quase nada possa justificar esses sentimentos.
Para se fazer o diagnóstico de um transtorno de humor é importante que haja uma mudança significativa no humor do indivíduo, com tempo e intensidade suficientes para produzir sofrimento e problemas em sua vida de maneira global.

CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS DOS TRANSTORNOS DE HUMOR

1) Depressão (também conhecido como transtorno unipolar ou transtorno depressivo) – Consiste numa mudança do humor de maneira acentuada e significativa, polarizando para um humor deprimido, acompanhado de tristeza, desânimo, choro fácil, desesperança, cansaço, falta de energia e de prazer, dificuldade com o sono ou perda de apetite e peso. Por vezes podem surgir dores físicas incapacitantes, pensamentos de morte e tentativas de suicídio. Esses sintomas surgem sem um evento desencadeante ou se este evento estiver presente, não justificaria a intensidade desses sintomas. É necessário também que tenha se passado pelo menos duas semanas com este quadro, sem que nada melhore e que não haja nenhuma alteração física confirmada (por exemplo, uma anemia ou hipotireoidismo) ou que o indivíduo tenha utilizado qualquer substância psicoativa que possa produzi-las (por exemplo, maconha ou álcool).

2) Transtorno Bipolar – é uma patologia do humor de gravidade mais significativa, onde o seu portador apresenta fases ou ciclos. Ora o indivíduo está em depressão e em outros momentos está no que chamamos de mania. Quando o indivíduo está em mania ele fica extremamente feliz, eufórico, por vezes arrogante, com ar de superioridade em relação aos demais, acredita ser capaz de fazer tudo e se irrita quando alguém quer impedi-lo, há um aumento de energia física (e sexual), envolvimentos em situações perigosas e diminuição da necessidade de sono.
Essa patologia também requer um tempo mínimo de uma semana na fase de mania e também um período na fase depressiva (que geralmente não é inferior a duas semanas). Ela é chamada de transtorno bipolar por apresentar dois pólos distintos de humor e o indivíduo em crise poderá estar em qualquer um desses pólos.
Se essas são psicopatologias que produzem grande sofrimento e constrangimento a um adulto, imaginemos como isso será sentido quando surgir em uma criança ou adolescente, onde a maturidade emocional ainda não foi alcançada e muitas vezes é extremamente difícil para elas dizerem o que estão sentindo e porque mudam tanto o seu estado.
Além disso, os sintomas tanto de depressão quanto de mania costumam serem intensamente sentidos e difíceis de serem definidos tanto pelas crianças e adolescentes quanto pelos pais e responsáveis. O que se percebe é que ela está diferente do seu humor habitual e que nada em seu cotidiano pudesse tê-la mudado daquela forma.

TRANSTORNOS DE ANSIEDADE

O medo é um dos mecanismos de defesa mais importantes da espécie humana. Sem ele estaríamos constantemente em risco a nossa vida e segurança.
Quando vivemos uma situação de perigo real, apresentamos alterações físicas (aumento da frequência cardíaca e respiratória, tensão muscular, hipervilância, aguçamento dos órgãos dos sentidos) a fim de que avaliemos rapidamente a situação e definamos a melhor conduta a ser tomada (lutar ou fugir).
Além disso, manteremos a lembrança dessa experiência para que não nos coloquemos novamente naquela situação ameaçadora.
Entretanto quando apresentamos um medo despropositado àquele estímulo aversivo ou quando o perigo por ele identificado não é real, mas as reações ocorrem independentes da nossa vontade, estamos diante de um transtorno de ansiedade.
Sendo assim, em resumo, um transtorno de ansiedade é uma sensação de medo extremo, com todas as alterações físicas proporcionadas por ela, sem uma razão real e justificada.
É comum crianças terem medo do escuro, do “bicho papão” ou de ficarem sozinhas. Quanto mais novas, mais intenso será esse medo e a medida que elas se desenvolvem e vão ampliando seu mundo e se tornando mais seguras e confiantes, esses medos tendem a desaparecer.
Em crianças vemos todos os tipos de patologias de ansiedade observados nos adultos como o pânico, ansiedade generalizada, agorafobia (medo de lugares com muita gente ou abertos) e fobias específicas.
Mas existe um grupo de transtornos de ansiedade que surgem especificamente entre as crianças e que são desconhecidos de pais, professores e outros profissionais que cuidam de crianças que são a Ansiedade de Separação (medo de se afastarem dos pais ou de figuras de referência) e a Fobia Escolar (medo em ir para á escola).

REPERCUSSÕES NA ESCOLA

São bastante significativas as repercussões que um transtorno de humor (depressão ou transtorno bipolar) ou de ansiedade acarreta na vida escolar da criança, mas também na vida social e familiar. Algumas crianças podem se recusar a irem para a escola de forma definitiva.
Não é incomum que professores e orientadores pedagógicos comecem a perceber uma dificuldade no processo de aprendizagem e socialização que a criança e o adolescente passam a apresentar de uma hora para outra. A intensidade e gravidade desse comprometimento dependerão do quão significativo for o quadro psicopatológico apresentado.
Na escola se observa uma importante queda no rendimento, piora dos relacionamentos e do comportamento. A participação em sala diminui as tarefas de casa não são realizadas, surgem dificuldades que antes não existiam (como dificuldade de leitura, escrita ou numérica) e muitas vezes, fica difícil entender o que está acontecendo com aquele aluno.
É neste momento que o professor tem um papel fundamental no sentido de perceber que algo de anormal está acontecendo. Torna-se necessário chamar o coordenador responsável e marcar uma reunião com os pais.
Entretanto muitas vezes ocorrem atitudes antecipadas, julgando-se tratar de uma fase que vai mudar e que necessitaria de apenas de uma advertência ou punição.
Sendo assim, é fundamental que os educadores atentos a essa problemática orientem os pais a buscarem a ajuda necessária o mais breve possível, monitorando todos os passos do processo e observando a resposta ao tratamento.

TRATAMENTO

O tratamento adequado somente poderá ser instituído após criteriosa avaliação de profissionais especializados (psiquiatra e psicólogos especialistas em infância e adolescência). Dados relacionados ao desempenho escolar, relacionamento com pares e professores e o comportamento dentro e fora de sala de aula serão fundamentais no processo diagnóstico.
O tratamento para qualquer transtorno de humor e também de ansiedade envolve, após o diagnóstico correto, o uso de medicações e psicoterapia. Muitas vezes demoram-se alguns meses (ou às vezes anos) para se conseguir uma remissão completa dos sintomas, principalmente no caso do transtorno bipolar, cuja estabilização do humor dependerá de um acerto de várias medicações simultamente, dado a complexidade e a gravidade dessa doença.
Uma vez estabilizada a doença o indivíduo deverá voltar ao seu padrão pré-crise e suas perdas cognitivas e emocionais poderão ser recuperadas.
O tratamento envolve a abordagem psicofarmacológica (uso de medicações adequadas), psicoterápicas (em diferentes abordagens e técnicas), orientação familiar, psicopedagógica e psicoeducacional.
Somente com a integração de todos os membros envolvidos (paciente, família, escola e profissionais de saúde) é que se obtém os melhores e mais rápidos resultados na remissão e controle dos sintomas clínicos e do processo de reabilitação.